O feminicídio não é falha do sistema, é modelo de negócio

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O debate sobre feminicídio no Brasil não pode se limitar apenas à leitura dos dados estatísticos, por mais graves e indispensáveis que eles sejam. É preciso olhar também para algo mais profundo: a existência de um ecossistema econômico, tecnológico e comunicacional que transforma a violência contra as mulheres em fonte de lucro. Não se trata apenas de um problema de conteúdo isolado, de casos individuais ou de “falhas” pontuais das plataformas. Trata-se de um modelo de negócio.

Na área de inteligência artificial, redes sociais, aplicativos e plataformas digitais, há hoje uma engrenagem que monetiza o ódio, a humilhação, a objetificação e a violência simbólica e material contra mulheres. Isso aparece de forma mais visível no audiovisual, mas não se resume a ele. Há aplicativos e ferramentas de IA capazes de manipular imagens de mulheres e crianças, gerar pornografia falsa, criar vídeos em poucos segundos e distribuir esse material com enorme facilidade. Em paralelo, existem também sistemas voltados à criação de narrativas misóginas, que colocam mulheres empoderadas ou em posições de liderança como vilãs, alimentando ressentimento, hostilidade e discursos de ódio.

Esse processo não beneficia apenas os criadores de conteúdo. Ele gera lucro para influenciadores, plataformas, operadoras de telefonia e internet, anunciantes e desenvolvedores de aplicativos. Ou seja: a violência circula porque move uma cadeia econômica. Por isso, é importante afirmar com nitidez que muitas dessas dinâmicas não são “erros” do sistema. Elas são parte de uma lógica de rentabilidade.

Também é necessário compreender que os códigos não são neutros. Quem programa, treina modelos e desenha plataformas inscreve neles suas visões de mundo, seus preconceitos e suas hierarquias. Assim como os sistemas podem reproduzir racismo algorítmico, também podem carregar percepções misóginas. As linhas de código, os critérios de recomendação, os filtros e as permissividades das plataformas refletem valores sociais e interesses econômicos. Em muitos casos, os algoritmos são calibrados para bombardear meninos e adolescentes desde cedo com conteúdos de ódio, ressentimento e masculinidade violenta.

Esse fenômeno aparece nas redes sociais, mas também nos jogos online, nos fóruns, nos aplicativos e nos ambientes digitais frequentados massivamente por adolescentes. Em espaços como partidas abertas, chats de voz e comunidades gamer, o discurso de ódio contra mulheres se naturaliza e se reproduz cotidianamente. Ainda que algumas empresas aleguem possuir ferramentas de moderação, essas medidas costumam ser insuficientes, fáceis de burlar ou simplesmente incapazes de enfrentar a lógica mais profunda que sustenta a circulação desse conteúdo.

Diante disso, a resposta não pode ser única nem simplista. A educação é importante, mas sozinha não resolve, sobretudo porque é um processo lento, contínuo e desigual, enquanto a máquina de propaganda misógina opera de forma permanente, intensa e altamente sedutora. Basta uma campanha bem direcionada, um personagem feminino erotizado, uma linguagem próxima do universo juvenil e um link para uma ferramenta de IA ou comunidade de ódio para capturar atenção, engajar jovens e reforçar padrões violentos. A disputa é profundamente desigual.

Por isso, enfrentar o problema exige ação em várias frentes: educação crítica, proteção da privacidade, responsabilização das plataformas, revisão dos modelos algorítmicos, regulação econômica e tecnológica, e desmonte dos mecanismos que lucram com a violência. O ponto central é entender que, enquanto o ódio contra mulheres continuar sendo rentável, a própria estrutura digital tenderá a empurrá-lo, ampliá-lo e refiná-lo.

Nesse sentido, faz sentido nomear esse fenômeno de forma política e direta: um modelo de negócio baseado em feminicídio. A expressão serve para deixar claro que a morte, a violência e a degradação das mulheres não aparecem apenas como efeito colateral, acidente ou externalidade. Elas se tornam parte de uma economia da atenção, da exploração e do lucro. Portanto, enfrentar o feminicídio hoje também passa por invalidar economicamente os sistemas que o alimentam.

Além disso, essa análise precisa ser ampliada para a própria infraestrutura da internet. Desde os protocolos de comunicação até os modelos de rede e distribuição de informação, há elementos estruturais que facilitam a circulação massiva de violência, assédio e desinformação. Ainda assim, o núcleo da questão permanece: se o modelo de negócio deixa de ser rentável, a engrenagem perde força. Por isso, mais do que denunciar conteúdos, é preciso atacar as condições materiais que permitem que a misoginia digital prospere.

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